domingo, 21 de março de 2010

Opinião sobre Política Externa Brasileira para uma vaga no CSNU

A ambição presidencial, por Jânio de Freitas


"A insistência pela inclusão do Brasil no Conselho de Segurança da ONU teria dado lugar à inclusão do próprio Lula.
JÁ ESTÁ MAIS DO que constatado que Lula nada faz sem ter como prioridade uma conveniência sua -pessoal, ainda que política-, conclui-se que sua turnê pacificadora no Oriente Médio teve como resultado um não resultado, sob a forma de uma pergunta. O que levou Lula às conversações em Israel, Palestina e Jordânia nem foi uma ideia criativa, que o ministro Celso Amorim cedo tratou de negar, nem foi a pretensão deslumbrada de projetar, com sua lábia, efeitos racionais e humanitários no conflito. A tanta distância da realidade os seus coadjuvantes de formulação da política externa não o deixariam ir.O que Lula foi levar ou buscar no Oriente Médio, afinal de contas? A hipótese de resposta em curso antevê mais uma semelhança entre Lula e Fernando Henrique, mas as restrições são muitas.A diplomacia brasileira trabalhou como nunca no governo Fernando Henrique. Foi um tal de desencavar homenagens, títulos e condecorações para o presidente, oito anos nesse jeitoso gênero de toma lá, dá cá, que não sobrou muito tempo para o batente de fato. A rigor, reconheçamos, não precisava sobrar mesmo, porque o Brasil não teve política externa própria.Como disse John Kenneth Galbraith nas memórias, ao tratar de suas atividades diplomáticas, embaixador brasileiro só se ocupava de festas. Quando, para dar uma ilustração a respeito, o embaixador de Fernando Henrique em Portugal foi chamado de volta, madame Luiz Felipe Lampreia voltou a Portugal para fazer a mudança mas, durante dois meses, não houve Itamaraty nem Planalto que conseguisse encerrar sua série ininterrupta de festas esplendorosas. Enquanto o novo embaixador esperava aqui.Não de todo, mas em medida suficiente, confirmou-se o boato sussurrado de que Fernando Henrique ambicionava a secretaria-geral da ONU, ao deixar o governo. E para isso havia todo um trabalho internacional e pressões sobre a própria ONU. A confirmação veio quando o então secretário Kofi Annan, assim que Fernando Henrique deixou o governo, nomeou-o para uma comissão. Obscura, porém. Atendia em parte ao desejo, mas mostrava que os apoios foram apenas gentis, sem empenho real. Nem se sabe o que foi feito dessa nomeação.Agora para Lula, o boato sussurrado é o mesmo. A esquecida insistência pela inclusão do Brasil como membro efetivo do Conselho de Segurança da ONU teria cedido lugar à inclusão do próprio Lula. A dele, na secretaria-geral.Se possíveis, alguns resultados positivos no Oriente Médio comporiam um cacife poderoso. Mas nem assim estaria superada uma restrição cada vez mais forte: em busca da afirmação de sua política externa, e de si mesmo, Lula se põe como um jogador à parte do esquema de jogo dos Estados Unidos. Até muito mais hoje em dia do que o fez em relação a Bush e seu governo.Se antes os americanos não apoiaram a entrada do Brasil no Conselho de Segurança, com mais motivos não admitiriam daqui a pouco a entrega da secretaria-geral a Lula. O Lula de quem nem se conhece a sua concepção de ordem internacional para o planeta guerreiro. Ainda que não fosse necessário, tão logo Lula saiu de Israel para a Palestina, a ultradireita que compõe o governo israelense não perdeu tempo nem sequer com um agradecimento: "Não queremos mediação nenhuma. O conflito tem que ser resolvido entre israelenses e palestinos". Aí, sim, de modo surpreendente, na Palestina a intenção de Lula provocou reação equivalente do governo Abbas: "Não há necessidade de mais intermediários, já há bastante".Seja o que for que Lula pretendesse colher no Oriente Médio, nada colheu lá, nem aqui. E ainda deixou mais uma interrogação".

*Fonte: Folha de S. Paulo - Brasil - 21/03/2010

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